Thursday, December 20, 2007

Segredo e sagrado

Era verão. Muitas das minhas memórias mais calorosas têm como pano de fundo o verão. Sim, era verão. Um dos verões de sempre, daqueles em que sempre tocava urgente a sirene dos bombeiros e em que nos habituávamos a olhar as encostas de floresta encarceradas numa garra de fumo. Sim, era verão. Era o verão de regar a horta, de abrir e fechar regos na terra para que a água seguisse rumo às pequenas, mas ordeiras, plantações de feijão, tomate, alface, cenoura e couve. Era o verão das idas ao rio, dos passeios com os cães, das tardes passadas a ler, dos filmes de aventuras na televisão. O verão do arrecadar da lenha para o inverno, do juntar da caruma para a cama dos bichos, da preguiça e da liberdade. O verão antes da apanha da amêndoa, antes do restolho a abrir gretas nas mãos, antes do chapéu do avô na cabeça e da burra transformada em elegante cavalo ao serviço dos Mosqueteiros do Rei de França, rumando para o desconhecido da paisagem que se abria ante os meus olhos e pela qual sempre vivi fascinada. Era um desses verões de outrora, inquietados pelo barulho das moscas, suados no calor que não debandava e que só a noite acalmava. Um verão que já não era de infância mas em que o crescer ainda se adiava.

Não me lembro do ano. Há muita coisa de que não me lembro. Lembro-me da sensação que esta música me provocava e do quanto a repeti no rádio para desespero da minha mãe. Sabia-me a verão. A ela devia soar a dor de cabeça...

Era a melodia que me agradava. Acho que nunca prestei muita atenção à letra. Por isso me custou tanto, mais tarde, encontra-la. Na verdade não encontrei, mau grado o muito que dei voltas à memória para me lembrar de um pedaço de letra que fosse. Chegou-me no acaso de um cd que um amigo do Brasil me ofereceu para que eu conhecesse a música que existia para além das telenovelas. Sabendo que a tinha e que podia escuta-la quando quisesse, acabei por a remeter para o baú das coisas boas e naturalmente, não voltei a ouvi-la, apesar de a sensação desse verão recheado - assim me engana a memória - de coisas boas, amiúdo me tocasse, e toque, a pele como uma brisa do entardecer e eu julgue ainda ouvir a Doninha a suspirar à sombra.

Hoje lembrei-me dela. Precisava lembrar-me de coisas boas. E pela primeira vez prestei atenção à letra... Sim, acho que, na verdade, sempre estive à espera que alguma coisa me chegasse... mas nunca, confesso, com a precisão de um poema escrito - e não escutado - há muitos anos atrás.



5 comments:

Anonymous said...

Mandas-me um mail? (outro mail)?
Só a dizer: Olá eu sou a tua irmã mais velha e tenho vontade de te bater por nunca me teres respondido. Mandas? Sim?

Gostava de responder, ainda que com ... (deixa-me pensar) ... praí uns meses (?) de atraso.

Anonymous said...

Já deves saber que é a Debs aí em cima. Até porque suponho que a mana gemea seja bem mais rápida a responder aos mails que eu lol

bsijo

Carla O. said...

Um belo puxão de orelhas é que vinha a calhar...! :) Next time... o meu mail está no profile. Mas já te mandei um. Behave, caçula sister.

Anonymous said...

:)
E fui,fui mesmo e vou continuar a ir, onde quer que estejas, tu, meu amor...
Beijo-te como sabes.

caçula sister said...

O.o para o comentário aí de cima LOl

Isso é que tens alguém que gosta de ti aos molhos, hein?! :)

Adiante ... recebi o mail e já está na lista. Dá próxima vez que me apetecer falar contigo, escrevo-te. Pode ser?

Beijinho e Feliz Natal