Thursday, May 10, 2007

Ontem, perto da meia-noite, precisei de descer à cidade. Vibrava ainda, repleta de cântigos e de ébria loucura. O cortejo da Queima fazia-se tarde e cansado.

Foi então que me vi. Corria de braços abertos no meio da turba. Juntava a minha voz às deles, entoando gritos de guerra numa batalha amigável. Vi-me jovem, tão jovem, tão à beira de tudo, tão distante de mim como sou. No longe de uma direcção que ainda fazia sentido, que ainda tinha futuro porque ansiar.

Cruzou-se com os meus olhos, o meu olhar. Não partilhei espanto comigo. Apenas entendimento. Do outro lado de mim, nesse tempo em que ainda não tinha acontecido, escutei-me o sussurro.

“Não tenhas medo”, disse-me. “Eu ainda não tenho e tu um dia deixarás de ter.”

Wednesday, May 9, 2007

Às vezes é como se a vida fosse como uma pedra no sapato. Não há poemas que lhe preencham a existência nem banda sonora que lhe atribua sentido. Dorme-se pelos dias, temendo o momento de acordar.

Temendo, ainda assim, que a pedra se solte e tudo, mesmo o que doi, nunca tenha existido.

Temendo que, entre uma e outra anedota de Deus, nós tenhamos sido apenas a piada seca. Aquela de que ninguém se riu e que ninguém entendeu.



Thursday, May 3, 2007



Há imagens de ti que vou guardar para sempre. E não quero.

Tuesday, May 1, 2007



Um dia estás na paragem do autocarro. Faz frio. Tens fome. Fumas. Procuras no bolso do casaco as moedas com que pagar o bilhete. Não as encontras. Tiras tudo para fora. Olhas os despojos da tua existência. Bilhetes de autocarro, bilhetes de metro, cartões Multibanco, o cartão de sócio do cybercafé, uma nota de cinco euros amarrotada, o bilhete de identidade, as contas do almoço da semana passada, folhetos que aceitaste na rua, publicidade que retiraste de algum balcão, o cartão do videoclube, a chave do euromilhões, cotão.

O autocarro chega. Atiras o cigarro ao chão. Retiras a nota de cinco euros. Arrumas tudo de volta no bolso. Entras. Pagas.

Sentas-te. Gritas.