Ontem, perto da meia-noite, precisei de descer à cidade. Vibrava ainda, repleta de cântigos e de ébria loucura. O cortejo da Queima fazia-se tarde e cansado.Foi então que me vi. Corria de braços abertos no meio da turba. Juntava a minha voz às deles, entoando gritos de guerra numa batalha amigável. Vi-me jovem, tão jovem, tão à beira de tudo, tão distante de mim como sou. No longe de uma direcção que ainda fazia sentido, que ainda tinha futuro porque ansiar.
Cruzou-se com os meus olhos, o meu olhar. Não partilhei espanto comigo. Apenas entendimento. Do outro lado de mim, nesse tempo em que ainda não tinha acontecido, escutei-me o sussurro.
“Não tenhas medo”, disse-me. “Eu ainda não tenho e tu um dia deixarás de ter.”





