Saturday, June 30, 2007

Everything but the [girl]...



Acho que me aconteceste como nunca ninguém me aconteceu. E eu sei que há razões porque tão poucas vezes ouvimos determinada música ou lemos determinado poema ou visitamos determinada cidade. Há becos e ruas estreitas que evitamos quando calcorreamos a via da memória e o quelho de luz mortiça onde nos separámos - para nunca mais - é esse ponto no mapa que eu, confesso, circundo para não ter de cruzar.

Mas ontem abri a caixa de pandora e hoje ainda não consegui fecha-la.

Aconteceste-me como tão pouco se acontece na vida. Com o génio de um argumento perfeito, com a precisão de uma fotografia clássica, com o uso correcto da gramática e a fluência poética do discurso. Aconteceste-me no engano de um momento que podia não nos ter acontecido, no lugar mais frágil da teia que sustenta o mundo; quase ao virar da página, quase esbatida pela saliva que emudeceu o papel. Foste e enquanto fomos, eu aprendi a ser.

Lembro-me de mim quando te li a dizer que partias. Que não voltavas. Que deixavas de me existir. O coração falhou-me um batimento e o seu ritmo salta ainda um compasso. Não fiquei mais pobre, querida, apenas um pouco mais calada. Sabes que sim. Rocei-te os dedos na palma da mão e deixei-te fechar a porta de mansinho. Desceste as escadas da nossa amizade com pés de lã e a cor com que o mundo te recebeu para seres dele foi a cor que te desejei. Plena de luz.

Sei que te apareço, de vez em quando, ao canto do coração. Ainda te sinto. Ainda te sei. Às vezes também te sentas ao meu lado no autocarro. Também és a pessoa que toma café na mesa em frente à minha, o vulto que vejo desaparecer numa esquina. Apareces-me sem aviso e recebo-te sem perguntas.

Hoje passaram quase dez anos, amanhã serão vinte, depois trinta e depois… depois a eternidade. Nunca te retenho por muito tempo - foi assim que combinámos -, mas perdoa-me se hoje me apetece sentar-me contigo a observar as pessoas que passam. Fica apenas um pouco para que possamos ouvir do princípio ao fim esta música de que tanto gostamos. Fica apenas o tempo suficiente para que eu acredite que tudo faz sentido.

Friday, June 29, 2007

... because I



Não me fazes lembrar uma marcha de Lisboa, já que foi de Porto a cor dessa história, mas lembrar-me de ti levanta do chão essa leve brisa de verão que afaga a alma e me resgata o sorriso.

Continuo sem saber muito bem por que me apaixono quando me apaixono. Procuro sempre o que não é dos olhos para ver e são ainda as imperfeições do outro o que mais me atrai. Em ti era tudo o que não eras tu o que eu queria. E é tudo o que eu nunca soube que te mantém preso à memória da luz de outros anos.

Visitas-me ainda, como hoje, que me lembrei de ti ao ouvir os Trovante na rádio. Não é deles a letra da nossa música mas havia algo de nós nos primeiros acordes da canção. Algo desse “nós” que existia para além da extensão de ti, onde aconteciam todos os outr@s que me completavam e por quem, também, a meu modo, sem modos, estava apaixonada.

Há músicas para tudo, para todos, para sempre. E esta, que ouço tão poucas vezes, porque muitas vezes me dói a consciência de existir, será eternamente a banda sonora do nosso arco-íris de afectos.

E sim… mais do que saudades tuas, tenho saudades de mim.

Thursday, June 28, 2007

This precious illusions in my head...

Hoje falámos de esperanças falsas, desses sonhos antigos ou devaneios recentes, que guardamos ao canto da cabeça e que achamos – porque achamos e nos achamos no direito de achar – que vamos, ainda, a tempo de concretizar.

E a questão que colocávamos era em que medida tais ilusões e, sobretudo, tal teimosia em abrir mão dessa pequena lista de fantasias, nos impede de alcançar aquilo que está em nosso poder realizar e que, ainda que não desencadeie "esse outro amanhã que há-de ser diferente"* pode fazer acontecer este hoje que faz a diferença.

No fundo, tudo começa por aceitar que, à margem de tudo o que achamos possível, existem as nossas limitações e que elas, ao invés de serem entendidas como fracaso, podem ajudar-nos a delimitar as fronteiras da nossa realidade e a fazer dela o melhor que conseguirmos.

*assim reza a Mafalda Veiga

Monday, June 25, 2007

Ai o caraças!

Ah! e coisa e tal “és muito competente e muito rigorosa mas muito discreta. Nunca ninguém sabe o que tu fazes, só que as coisas aparecem feitas. Tens de te mostrar mais e coisa e tal, dar nas vistas para o chefe ver …

Mas… um rai’s ma parta! Se sou competente e rigorosa e o trabalho aparece feito – porque fui eu que o fiz – porque raio tenho de provar aquilo que está mais do que provado? Que coisa e tal, sou competente e o resto das qualidades que me atribuem?

Como é que uma gaja que nunca foi de dar graxa aprende a viver de aparências… ou a tornar mais aparente aquilo que faz? Não basta fazê-lo?

Só se por cada merda que fizer mandar tocar a fanfarra…

Sunday, June 24, 2007

São João, santo bonito...

(marteladas de um outro S. João)

No Porto há duas situações em que o povo abdica de bom grado da sua “bolha” pessoal. A primeira é de manhã, à ida para o trabalho, quando, por mais cheio que vá o autocarro, se arranja sempre espaço para mais um – mesmo que isso signifique ficar-se encaixado debaixo do sovaco de alguém.

A segunda é durante o S. João, quando a Ribeira – espaço bem pequeno – se enche de gente até rebentar pelas costuras. Gente que, mal termina o fogo de artifício, acha por bem debandar dali para fora… custe o que custar… Se a essa turba determinada juntarmos a metade que, também a todo o custo, tenta descer para junto do rio… bem… a situação torna-se complicada. Os amigos perdem-se no meio da confusão, recuamos a um canto que nos ofereça um mínimo de segurança e juramos para nunca mais… apesar de sabermos muito bem que, para o ano, lá estaremos outra vez.

Este ano o fogo não encheu a alma, não só porque dele apenas vimos o que a brecha entre os prédios nos permitiu, mas também porque – se calhar por causa da malfada crise – não teve o mesmo brilho apoteótico de outros tempos. Ainda assim, para mim, o S. João encerrou-se com um saldo muito positivo. Faz bem ao coração a presença e companhia dos amigos.

E se não guardar memória do fogo, guardarei certamente memória do jantar. A acompanhar o vinho partilhámos pedaços de vida e eu, que tanta falta sinto dela, bebi nesse momento a energia que me acalentará, inebriada, durante os próximos dias.

Por isso, Sofia e Octávio, obrigada. Na minha cabeça ainda retumbam os apitos dos martelos mas é um sorriso que me veste a alma.

Thursday, June 21, 2007

Volta Harry que estás aperdoado...

Hoje, depois de ter arrumado na mesa de novidades mais uma catrefada de livros pseudo eróticos a virar para o hardcore, supostamente escritos por meninos e meninas que assim viveram as agruras e pertinências do sexo consentido, contrariado, obrigado, pago ou todas as hipóteses de cima em versão “tudo ao molhe e fé em deus”... respirei fundo, tentando refrear o impulso – manifestamente diabólico – de sacar do isqueiro e atear a primeira labareda do último grande auto-de-fé da humanidade e repeti o mantra que, nestes últimos tempos de absurdos enredos literários, me tem sossegado a alma e preservado a fé na elevada condição do escritor : falta um mês para sair o Harry Potter, falta um mês para sair o Harry Potter, falta um mês para sair o Harry Potter, falta um mês para sair o Harry Potter, falta um mês para sair o Harry Potter…

Tuesday, June 19, 2007

O último ano foi, sem dúvida, anti-climático. Ansiava por uma mudança, a mudança chegou… e mudou tudo. Até o que eu não queria.

O tempo, que eu tanto prezava e que muito respeitava, porque me permitia viver e prestar atenção; tornou-se prisioneiro dos dias e deixou-me do lado de fora das horas. Deixei de conseguir vaguear pelos momentos para passar a existir em linha recta, no espaço entre dois pontos, sem atalho por onde me escapar.

Num ano desaprendi as emoções. Tornei-me cinzenta da cor do nada, alheada do ritmo que não cessa o mundo. A vida que me servia de janela sujou-se com as teias de aranha da mediocridade e, porque não me dei conta a tempo, porque achei que esse “agora” era o que tinha de ser, regressei a uma versão primitiva de mim - a um “eu” que julgara já ter deixado pelo caminho.

Reconhecer que as coordenadas da existência se tinham alterado – ao ponto de eu me ter transformado no meu avesso - foi, talvez, a parte mais dolorosa de todo este processo de acordar. Mas acordei. Estremunhada e de muito mau humor, mas acordei.

A vontade de mudança impõe-se novamente, mas, desta feita, ela é bastante mais complexa do que o mero “mudar de trabalho”. Desta vez o esforço exige que o coração regresse ao sítio e que a mente se liberte das grilhetas que a condenam ao entorpecimento.

No dia em que o meu olhar alcançar para além do horizonte e os meus passos para lá se encaminharem, saberei que subi à mais alta montanha e que, mau grado as agruras da escalada, me encontrei… e reconheci.

Monday, June 18, 2007

S,
Hoje não soube o que te dizer e por isso ofereci-te companhia. Para que servem as palavras quando a alma se invade de silêncio e quando as frases, por melhor escolhidas, não travam o caudal abrupto das lágrimas?

Conheço-te o riso e conheço-te a raiva.
Queria não te conhecer a dor.

Mas existe. Ficamos para trás quando os que partem não voltam. Ficamos presos ao que, deles, neles, já não é. Ficamos para ser. Para continuar. Para concretizar em pleno o sussurro de uma prece.

Sim, vai tudo correr bem. Acredita.
"Todos os dias devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas" ---» Goethe

Quero deixar de ser esta ave ferida que nunca chegou a voar... ...?

Friday, June 15, 2007

Custa… se custa… custa para cara[go]!

E não é tanto pela perda ilusória do controlo do tempo, do domínio das horas e do espaço vazio entre elas. Custa pela antecipação do desgaste. Pelo adivinhar do pó que cairá sobre as engrenagens da alma e que, mais cedo do que tarde, me bloqueará a energia e reduzirá ao avesso de mim.

Nunca tive paciência para o que na vida é mera circunstância. Aborrece-me a mediocridade e assusta-me que, ao não conseguir escapar-lhe, o sangue se me coalhe nas veias e me tolha a visão. Que me cegue ao ponto de me deixar de importar.

Assusta-me olhar para as pessoas e já não sentir o desejo de as tocar no que escondem. Assusta-me partilhar o mesmo espaço com elas e não observar a sua presença. Assusta-me a incapacidade crescente de até comigo conectar.

Sei que pairo sobre os dias, que vivo por fora, evitando embrenhar-me no que da sombra é luz. Acuso o que nas palavras é oco e retribuo o discurso na mesma medida. Já me cansei de lhe tentar dar direcção. A pouca gente interessa o real significado das palavras. Transformaram-nas em armas, objectos de arremesso, lanças e punhais que ferem de morte.

... como é bom voltar ao trabalho…
[mais valia ter ficado na cama]

Thursday, June 14, 2007

Quando vim estudar para o Porto, para aí há coisa de treze anos, tive de ir ver ao dicionário o significado da palavra trenga. Em Viseu, de onde eu vinha, tal termo não se usava e eu, pouco habituada ao falar do norte, julguei, num primeiro momento, que me estavam a ofender e, num primeiro momento, senti-me ofendida.

Mas a palavra nada tinha de ofensivo. Era apenas uma forma diferente de dizer pateta ou despassarada.

Treze anos depois e já com muitos termos tripeiros incorporados no meu vocabulário, foi isso mesmo que me ocorreu chamar-me depois de ter chegado ao trabalho para descobrir que… não trabalhava.

Não sei por ordem de que falha de cálculo, meti na cabeça que hoje era dia 15 e, vai daí, lá fui com sono e aos trambolhões, vestida com o meu melhor mau humor, em direcção a Gaia. Os meus colegas, ao verem-me, franziram o sobrolho e perguntaram, por entre risinhos, se eu não tinha batido com a cabeça em qualquer lado, ou se as férias, de tão intensas, me tinham provocado amnésia. E depressa sacaram do horário – o mesmo para que, na noite anterior, tinha estado meia hora a olhar – para me provarem, por [a+b], que para além de trenga era cega e que o que fazia melhor era dar meia volta e voltar para a cama.

E como bem mandada que sou, lá dei meia volta e fui…
laurear a pevide - outra bela expressão que não se usava em Viseu.
Quem vem e atravessa o rio…
…leva com chuva na tromba e frio.

Wednesday, June 13, 2007

Imagino agora o que devem sentir os pais quando as suas crias largam em berreiro desenfreado pelo supermercado fora. E entendo o ar de desentendidos que fazem, fingindo não ter qualquer tipo de relação – por mais remota – com tais criaturas.

Isto para dizer que a minha gata é uma [rameira]. Andou toda a noite embrulhada com o siamês ali da casa em frente e com outros felinos da vizinhança e concelhos limítrofes. Toda a noite miou e ronronou e bufou e acordou o bairro inteiro e fez tremer os antípodas.

Sempre que eu ia fumar um cigarro à varanda e calhava de um vizinho meu ainda estar ao fresco na rua, temia a pergunta inevitável:

Vizinho: Então menina, esta não é a sua gata? Aquela que, tão sossegada, costuma estar à janela a apanhar sol?

Negaria, evidentemente, improvisando um ar afectado, digno da minha superioridade moral e da conduta irrepreensível da Scully – é este o nome dela.

Mas, da próxima vez que tiver uma conversa séria com a bicha, vou ter de lhe dizer que, ok, pode divertir-se mas é melhor não trazer os gajos para casa.

---»

Amanhã à noite regresso ao Porto e, para não variar, parto com o coração apertado. Nunca fico o tempo suficiente por aqui… Sei que faço o posso, que dou o meu melhor… mas tenho a perfeita consciência de que o meu melhor, pura e simplesmente, não é suficiente.

Monday, June 11, 2007

Para mim a minha mãe sempre foi o mais belo poema. A fada madrinha do meu conto de fadas. A última sacerdotisa de uma longa casta de mulheres sagradas. Sempre me pareceu mais forte e eterna do que o tempo, conhecedora da terra e dos seus ritmos e sábia de uma forma que só os puros conseguem ser.

Apesar de tudo nunca se extinguiu nela essa chama devoradora da juventude. Sempre existiu presa à corrente fluida do seu riso e por detrás da sombra que tantas vezes ameaçou os seus olhos.

Ó Maria, eu venho lá da Toiça. Parece que não partes um prato e és o desinço da loiça”, lá lhe cantou uma vez, certo pretendente ou amigo numa das folias e tropelias do verão da aldeia. Sempre gostei de pensar na minha mãe como o “desinço da loiça”, prenha dessa alegria primitiva que faz transbordar o coração e nunca mais deixa que se esvazie…

[só que o fundo vai gotejando]

Dá-me para ficar zangada com ela, às vezes. Nunca lhe expresso este meu sentimento tão profundamente egoísta mas nem sempre consigo evitá-lo. Surge-me num ímpeto, como bílis à boca. Desaparece no instante em que se manifesta mas deixa-me o gosto acre do ácido.

Não gosto [doi-me] desta sua cópia a papel químico.

Quero que ela volte a ser esse lugar onde eu sossegava a alma.

Sunday, June 10, 2007

Tinha eu pegado no sono – rai’s parta o raio do café e o catano dos gatos que me deixaram toda a noite de olho esbugalhado – quando tocaram à campainha.
Lá vem molho”, pensei eu. É raro tocarem à campainha e, quando o fazem, é porque aconteceu desgraça ou outro episódio de “tez menos colorida”.
Levantei-me, olhei para o relógio – eram duas da tarde; sinal de que o sono tinha sido mais pesado e longo do que supura – e abri a porta. Era a vizinha de cima.
- Olhe que a sua mãe está ali fora a apanhar chuva debaixo de uma árvore – disse-me.
Olhei para ela com ar de: O quê? Quem? Onde? Quando? Como? Porque?, suspirei e proferi um “obrigada, eu já lá vou”.
Espreitei pela janela da cozinha e lá estava ela, de facto. Os braços cruzados, o olhar perdido no longe de um mundo só dela e a chuva caindo. Vesti uma calças, calcei os sapatos e fui busca-la. Não ofereceu resistência e pareceu ter ficado contente por me ver. Menos mal.

Tudo em paz e tudo em casa, dei por mim a abanar a cabeça enquanto tomava banho e me lembrava da situação. A apanhar chuva debaixo de uma árvore… enfim…

… entre:

ir descalça para o Centro de Dia

e

ir de pijama para o Centro de Dia,

apanhar chuva debaixo de uma árvore bateu aos pontos cada um desses eventos e meia dúzia de outros mais. Sete olhos não chegam para prevenir todos os “nonsense” e menores cataclismos deste nosso pequeno mundo.

---»

Acabo sempre por colorir tudo ao jeito dos Monty Python. Descubro que o faço, não porque tenha, oculta, uma veia de negro humor mas porque pintar com graça a desgraça – ou o que dela se aproxima –, me salva desse curto-circuito mental que muda o tico e o teco de lugar. E por isso, de uma forma um tanto ou quanto cínica, vou mantendo o juízo.

Saturday, June 9, 2007



Sim, eu sei. Na mala vieram dois livros da Patrícia Cornwell. Na mala continuam dois livros da Patrícia Cornwell. Na mala regressarão dois livros da Patrícia Cornwell. Pobre Patrícia, que, tirando as pancas, até é boa rapariga.

Mas tenho lido. Tenho lido, sim senhora. De blog em blog interessante tem sido a leitura. Mas não são uns blogs desses… como o [meu], onde se conta quantas vezes se coçou a virilha durante o dia, onde se bate com a cabeça porque já ninguém nos consegue aturar os lamentos, nem onde se postam poemas só porque é bonito – se bem que, muitas vezes até venham a calhar e se faça, à descarada, um copy-paste ali para uma pasta secreta do nosso disco.

Não, tenho lido uns blogs especiais, escritos por quem abraça a diferença e se confronta diariamente com as consequências dessa decisão. Por quem vive às escondidas – e, às vezes, nem por isso – aquilo que é [ou deveria ser] universal no amor. Blogs no feminino, sobre o feminino, para o feminino. Blogs sobre o que, ao olhar castrador da sociedade, tanto escapa e sobre essa forma tão encantadoramente normal de poesia.

E tudo porque o outro dia estava para aqui a pôr a lavar as toneladas de roupa suja que o meu irmão acumula e a que a minha mãe, por força das circunstâncias, não tem podido dar vazão e encontrei aquela minha velha T-Shirt do Festival Sudoeste onde, aqui há uns anos atrás, estive com a Cristina e a V.

E tudo porque, ao lembrar-me da Zambujeira e da V. me recordei – inevitavelmente – do seu “coming out” e dessa viagem de carro em que, durante horas a fio, a ouvi falar de P. e da maravilha de, finalmente, saber para que lado amar.

E lembrar-me de V. reergueu o fantasma da Virgínia Wolf em mim. “Ao longo da vida perdi muitos amigos”, disse ela. “Uns porque morreram, outros porque tive demasiada preguiça para atravessar o passeio.

[Poix]

Talvez tenha procurado pedaços de V. nos blogs que li. Talvez tenha medo de pegar no telemóvel e de, ao tentar dar-lhe aquele toque único que, para nós, sempre significou “estou viva, estou bem”, a TMN me diga que o número já era. Ou talvez tenha medo de… sei lá… de me perder… de cada vez que perco alguém.
Hoje deu-lhe para não ser ela outra vez. Levanta-se, vem a suspirar pelo corredor a imensidão de uma dor que não é real e abre e fecha a porta da rua; murmurando palavras que não entendo, um diálogo em partes, fragmentos, escombros… fantasmas.
Depois repete o caminho de volta para o quarto, enquanto a gata, com o cio, se lhe tomba aos pés procurando atenção. Senta-se no escuro, ignorando o cansaço, resistindo ao sono, escutando no silêncio o grito de muitas vozes, temendo que as horas passem e a manhã chegue sem que ela dei-a conta, temendo que o fio que prende o mundo se parta e este se perca. Sei lá eu…

Levanta-se de novo. Repete-se. Irrito-me.

Às vezes parece que perco não só a batalha, mas a guerra por inteiro.

Thursday, June 7, 2007


I know! I Know! I do fucking know! Mas posso-me sentir zangada com as forças cósmicas do universo? Posso sentir-me zangada com Deus, deus, santos e diabos? Posso pontapear as pedras da calçada, esmurrar o ar, morder o silêncio e recusar-me a reescrever o mundo, a alterar o sentido de tudo o que antes era definição? Posso?
Ok, ainda bem.

Wednesday, June 6, 2007


Ao fim da noite há sempre espaço para o discurso ébrio do Gabriel e para a sua mão abarcando, num gesto, os livros que tenho nas estantes e que espalho pela casa; como se, por os ler, também os pudesse escrever.

Não que me faltem as ferramentas – não esqueci tudo da gramática – mas falta-me o que contar.

E de histórias sobre a espera… está o mundo cheio. E eu farta.

Tuesday, June 5, 2007


"Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, acorda." Jung

Enfeitiçaste-me As Horas e porque dizias que não, tombaste como pólen sobre a minha pele. Deixas-me entres dois caminhos, certa de qual, por agora, tomar. E porque não o conheço e porque és tu quem nele me aguarda e porque não quero, como Virgínia Wolf, atirar-me ao rio do esquecimento; agarro-te a mão se ma estenderes e confio-te a alma, para que ma percas.

Sunday, June 3, 2007


Um homem, chamado Charlie Chaplin, disse uma vez que "a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios...por isso, canta, ri, dança, chora e vive intensamente cada momento da tua vida...antes que as cortinas fechem e a peça termine sem aplausos..."

Right…

So... onde está o argumento?

Depois, Deus - que só é perfeito porque não existe - lembra-se e até acerta.
A Ana, com cara de "no que é que eu me vim meter?"

Friday, June 1, 2007


O pretexto tem sido que me deixei ficar por Viseu, sentada nas rochas de um calhau, olhando serena o horizonte ponteado pelas luzes de aldeias de que nunca soube o nome, bebendo cerveja de lata, fumando Ventil e seguindo, no céu, o curso de satélites que o mundo espiavam, enquanto a floresta, paciente, apertava sobre nós o cerco e pintava de cinzento o que ainda julgávamos ser cor.

É um pretexto poético, não o nego; o meu “Clube dos Poetas Mortos” pessoal e intransmissível, a história de encantar que me repito para adormecer e da qual, na verdade, nunca cheguei a acordar.

Ao mesmo tempo, contudo, evito pensar em Viseu. Na verdade, evito, de todo, pensar. Penso que penso mas na verdade não penso nem quero pensar que penso porque pensar é muito solitário… ou qualquer coisa assim… palavra a mais ou palavra a menos… tu o saberás.

Penso e não penso em Viseu. A cidade é mais uma sensação do que uma conclusão. Mais do que um estado de alma é a memória de um cheiro, a forma de um rosto que temos dificuldade em situar e de cujo nome nunca nos conseguiremos lembrar.

Não, não penso em Viseu.
Viseu ocorre-me.
Acontece-me.

Consigo reproduzir o som da gravilha que nos servia de passeio na ARCE e, como que em realidade virtual, consigo ver com distinto pormenor os cantos da casa e revisitar cenas inteiras com esse olhar que se coloca de fora mais do que por dentro. Lembro-me, sim, mas mais do que me lembrar sinto. Sinto o antes de uma forma bem mais verdadeira e acutilante do que o agora. Como se que o que inebria no que já foi não tivesse consequência ou continuação no que agora é. Como se, mais do que um desvio no caminho, o mapa se tivesse rasgado e com ele, na parte que comigo não ficou, se me tivesse tolhido a capacidade para sentir. Como se o sangue das emoções se tivesse esvaído na miríade de pequenos caminhos que deixaram de ter direcção para seguir.
São bonitas as palavras, eu sei. E melhor soam consoante a posição em que as colocamos nas frases e com elas formamos parágrafos, que outro intuito não servem que não seja o de nos enganarmos a nós próprios.

Tem sido um bom pretexto este, o de que fiquei presa no tempo dessa Avalon por nós criada. Existirmos no passado, como numa vida paralela, sempre nos retira a responsabilidade de existirmos no presente e de nos projectarmos no futuro. Se outro “eu” por nós vive, para quê nos darmos ao trabalho de viver?