Mas ontem abri a caixa de pandora e hoje ainda não consegui fecha-la.
Aconteceste-me como tão pouco se acontece na vida. Com o génio de um argumento perfeito, com a precisão de uma fotografia clássica, com o uso correcto da gramática e a fluência poética do discurso. Aconteceste-me no engano de um momento que podia não nos ter acontecido, no lugar mais frágil da teia que sustenta o mundo; quase ao virar da página, quase esbatida pela saliva que emudeceu o papel. Foste e enquanto fomos, eu aprendi a ser.
Lembro-me de mim quando te li a dizer que partias. Que não voltavas. Que deixavas de me existir. O coração falhou-me um batimento e o seu ritmo salta ainda um compasso. Não fiquei mais pobre, querida, apenas um pouco mais calada. Sabes que sim. Rocei-te os dedos na palma da mão e deixei-te fechar a porta de mansinho. Desceste as escadas da nossa amizade com pés de lã e a cor com que o mundo te recebeu para seres dele foi a cor que te desejei. Plena de luz.
Sei que te apareço, de vez em quando, ao canto do coração. Ainda te sinto. Ainda te sei. Às vezes também te sentas ao meu lado no autocarro. Também és a pessoa que toma café na mesa em frente à minha, o vulto que vejo desaparecer numa esquina. Apareces-me sem aviso e recebo-te sem perguntas.
Hoje passaram quase dez anos, amanhã serão vinte, depois trinta e depois… depois a eternidade. Nunca te retenho por muito tempo - foi assim que combinámos -, mas perdoa-me se hoje me apetece sentar-me contigo a observar as pessoas que passam. Fica apenas um pouco para que possamos ouvir do princípio ao fim esta música de que tanto gostamos. Fica apenas o tempo suficiente para que eu acredite que tudo faz sentido.















