Foi ao rufar dos tambores que, hoje, entrámos na li[b]raria. Daqueles tambores que anunciam que a guilhotina está perto e que não há intervenção divina que impeça a lâmina de cortar o pescoço. Subimos as escadas como quem percorre o corredor da morte, arrastando os pés, evitando pronunciar a palavra “livros” em associação a “Harry Potter”.
Havia caixas com livros, isso havia. Belas caixas à espera de serem abertas, belos livros à espera de serem arrumados… mas nenhuma a dizer Bloomsbury. Nenhum a dizer "Harry Potter and the Deathly Hallows". Anunciava-se bela a festa. Sangrenta. Impiedosa.
Chefinha chegou, de phone ao ouvido. De orelhas em riste esperámos pela sentença final. Eram 9:30 da manhã. Os ponteiros do relógio soavam como o deflagrar de um morteiro. Ensaiávamos o texto da carta de demissão - antes o desemprego que uma turba enfurecida pela frente. Chefinha nunca mais se calava. Não sabíamos com quem falava. Não conseguíamos perceber o que lhe diziam. A conversa terminou. Não sustivemos a respiração, mas para dar efeito dramático, digo que sim. Sustivemos a respiração. Não houve grandes planos das nossas gotas de suor a escorrer pela testa – nem gotas de suor - mas digo que sim. O suor escorreu-nos pela testa. Não havia banda sonora a acompanhar a cena mas, sim, a música cresceu em intensidade, ecoando pelo peito. A câmara subiu em picado, diminuindo-nos na imagem, expressando a nossa impotência, o nosso quase desespero – que já era mais “ora, que se lixe, quero lá saber, não me pagam para isto” – quando, num último ribombar dos tambores, TUM-TUM, o silêncio se apoderou do enquadramento. Um de nós, porque fica bem antes de mudar plano, engoliu em seco. Glup!
Cena 2 – Interior/dia
P34 – Plano Médio
Chefinha olha pensativa para o telemóvel e, depois, ergue o rosto para a equipa que a olha, expectante. Sorri.
Chefinha:
- Os livros já estão em Lisboa. Saem para o Porto ainda esta manhã.
The End.
Não, não houve abraços nem lágrimas. Um suspiro de alívio sim, bem profundo, logo precedido por um “valha-me deus que isto tem de ser sempre assim, à última da hora e em cima do joelho”.
Quando fui almoçar, às 14:30, o serviço de expedição da nossa loja já tinha recebido os livros. Quando regressei do almoço, às quatro, já eles tinham sido arrumados onde ninguém lhes pudesse chegar e pela livraria, desde as 15:00, que vagueava o primeiro cliente que se dispunha a esperar até à meia-noite só para poder ser o primeiro a comprar o último Potter. Era um miúdo castiço, para aí de 13 anos, que logo aconchegámos debaixo da nossa asa protectora.
Onde estavam os livros ontem, quando já devíamos tê-los, ninguém sabe explicar. Por que caminhos andaram antes de chegarem hoje a Lisboa, nunca ninguém saberá. O “correio” – expedição – era interno, logo, todos os passos, localizações no mapa, contactos em viagem são possíveis. É só ir chateando toda a gente até chegarmos ao colega que conduz a carrinha. Ontem alguma falha houve no canal de comunicação mas… já não interessa. A festa está feita e há miúdos felizes que, a medo – afinal gente morrerá na terra da magia – vão passar a noite em claro agarrados à história, virando as páginas – sôfregos – repetindo em mantra “não pode ser o Harry, não pode ser o Harry”. Quando for a minha vez a cantilena será diferente. “Não pode ser o Ron e a Hermione, não pode ser o Ron e a Hermione”.
O lançamento foi engraçado. Apesar de não trabalhar à noite dei um salto à livraria para ver o ambiente e para "mais tarde recordar". A fila de pessoas até que era jeitosa e, para entreter a malta enquanto a meia-noite não chegava, andavam por lá uns moços e cabritinhos a dar um ar de sua graça e de seu fogo.

Não sei o que passou pela cabeça dos criativos-estafermos-de-serviço para pôr a Carmina Burana a tocar quando o relógio soou as doze badaladas. Eu, e creio que toda a gente, estava à espera da banda sonora do filme. Mas pronto, adiante. Esperava muito mais – porque o filme que nos tinham contado era muito melhor - mas não pude deixar de sorrir quando os três putos vestidos à Harry Potter saíram da loja, em direcção à tenda que havia sido montada na rua, com os livros nos braços.
O burburinho que se gerou entre os mais novos, o “olha, já aí vem!”, fez valer todo o stress dos últimos dias. O brilho dos seus olhos fez com que tudo valesse a pena. Tudo valeu a pena. Pela magia.