Tuesday, July 31, 2007

Boa noite, Ingmar

É o palco que te chama. Não resistas. Sente-lhe as tábuas gastas com os pés descalços uma última vez. Fecha os olhos. Isso, fecha os olhos. Escuta. Ouve o silêncio da tua fúria, das tuas dúvidas, do teu medo, do teu vazio. Eleva ao teu coração todas as perguntas sem resposta. Todas as perguntas para que nunca tiveste resposta e finge, uma vez mais, que sabes tudo. Não sabes tudo mas foi esse não saber que te instigou. Foi esse querer saber que te fez transformar a vida em palavras, em imagens, em lugares de comum incompreensão e de iluminado entendimento. Não sabias tudo, pois não? Ou sabias? Talvez soubesses e, por isso, abominasses o que era simples e fácil. Por isso mordias a vida. Por isso a desafiavas, desnudando-lhe o corpo, revelando-a em toda a sua imperfeição. Doce de tão grotesca. Grotesca por ser tão falsa. Era isso que amavas, não era? O monstro dentro de cada um de nós. O cinzento que, de todas as cores, é o que mais dimensão nos dá. Era isso que amavas, sim. E era isso que te assustava em ti. Assustava-te o que não controlavas quando contigo próprio e, por isso, controlavas tudo à tua volta. Para que não percebessem que te perdias? Ou para não te perderes de todo?

Abre os olhos. Enfrenta a plateia vazia. Já não te podes esconder nos bastidores. Nenhuma voz de “acção!” te resgata ao tempo. Não te importas, eu sei. Esta é a apoteose que esperavas. O mundo, num todo, sussurrando “corta!” à tua passagem. E ris, ris. Ris porque somos frágeis e receamos sê-lo. E porque sabes, isso sabes, aprendeste, que só o sendo, só não o temendo, se prova a vida. Se alcança a existência. Se supera a morte.

E ris ainda, agora que abandonas o palco. E em jeito de vénia, aceitando o aplauso, atiras de volta ao vazio as flores que te lançam aos pés. Julgam ouvir-te dizer “obrigado”, mas tudo o que murmuras, já de costas, já de partida, é… “tolos!”.

Sunday, July 29, 2007

O que será feito desta mulher?

I (still) have a dream...

O pá, desculpem lá, desculpem lá mas há coisas que, por mais que tente, não me entram na cabeça. Nem à marretada.

Saí para tomar café ali na tasca da esquina – são quase horas de jantar mas eu ainda não passei a fase do pequeno almoço – e aproveitei para ler o jornal e actualizar-me nas desgraças do mundo. Leio o jornal de trás para a frente, por isso, vou enchendo a cabeça de informação inútil antes de me debruçar sobre o que realmente interessa. A páginas tantas encontro um artigo sobre o Second Life, o jogo online do momento, que dizia que a empresa que gere o dito tinha fechado todos os casinos lá do burgo à luz de uma lei qualquer norte-americana que proíbe tal tipo de exploração na Internet. Considerando que o mundo é mais do que a América e os utilizadores do Second Life são, maioritariamente, do resto do mundo, há todo um conjunto de gente que não achou graça à brincadeira e que manifesta o seu desagrado lá pelo livro de reclamações “bites e baites “ do site. Até aqui tudo bem, não tivesse o jornal publicado o comentário de um usuário que dizia “eu até nem gosto de jogar mas sou a favor da liberdade”.

Liberdade. Hum… Eu não sou a desfavor de nada. Ponto. Até entendo o jogo e o grau de vício que pode gerar mas não me identifico com ele. Já lá fui espreitar mas não gostei. Gosto das coisas simples, das que se vivem na pele, gosto de uma vida real, mesmo quando se anda à nora sem saber o que fazer. Entendo, todavia, que por se tratar de um fenómeno sem precedentes ninguém queira ficar atrás do futuro e porque do futuro se trata nem os Governos lhe ficam indiferentes, pelo que não foi à toa que, recentemente, até a Suécia abriu um consulado lá dentro. Há que acompanhar os tempos e contra esse facto não há argumentos. E reconheço que, em muitas coisas, eu tendo, voluntariamente, a permanecer no passado.

E esse estar no passado inclui o significado e expressão da palavra Liberdade. Sim, claro, a liberdade deve existir e manifestar-se online mas porque é que, em tantas coisas, não se aplica a mesma energia e convicção no ofline? È isso que eu não entendo e de forma alguma aceito. Sempre que nos inventamos naquilo que não somos, sempre que nos entregamos de corpo e alma àquilo que, em boa verdade, não existe; o mundo não pula e avança mas anda aos trambolhões, à mercê de quem se aproveita da alienação e, resguardado por ela, vai sabotando o real e universal significado da liberdade. Mas quem fala em Second Life também fala em futebol… pelo que a alienação, como o abuso, vestem muitas vidas e têm muitas formas.

Okay, fixe, que o pessoal se levante em protesto contra o encerramento dos casinos do Second Life mas, já agora, porque não fazer o mesmo pelo muro que se constrói na Palestina? Pelos soldados e população que morre no Iraque? Pelos postos de trabalho que se perdem em Portugal? Pelos centros de saúde e maternidades que se encerram? Pela fome de que padece tanta, tanta, tanta gente… mesmo ali fora, na nossa rua? Right! É mais fácil alapar o cu do que dar o corpo ao manifesto. As boas intenções existem na cabeça mas nunca saem pela boca fora. É mais confortável protestar em silêncio e no anonimato. E eu, que não sou exemplo para ninguém, sei que também faço o mesmo. Mais vezes do que me dita a consciência. Mais vezes do que gosto de admitir.

Mas gosto das lutas que se fazem na rua. Dos braços que se levantam ao ritmo das palavras de ordem. Dos dois dedos erguidos porque se acredita na vitória das ideias e das vontades. Gosto desse sentimento de pertença a uma causa e dos sorrisos que se partilham e que nos ligam num mesmo propósito. E gosto desse vago sentimento de satisfação que sobra ao silêncio das ruas. Desse saber que provavelmente nada fará a diferença, mas que, apesar de tudo, estivemos lá e deixámos a nossa marca. Há que começar por algum lado porque a mudança que se deseja não se faz no politicamente correcto do sofá.

A segunda manifestação em que eu estive – a primeira foi em 1980 e carqueja, numa actividade da escola a favor da paz – foi por causa da antiga PGA (já nem me lembro muito bem o que era isso). E foi muito engraçado. Faltámos às aulas – os professores por solidariedade não nos marcaram falta -, descemos à vila e exigimos uma audiência com o Presidente da Câmara (o que queríamos que ele fizesse já não sei, mas também se mostrou solidário) e cortámos a estrada nacional. E aí sim, à luz da distância, é que foi engraçado. A GNR estava à nossa espera e porque é da sua competência garantir o bem-estar dos cidadãos; depois de quase termos sido abalroados por um camião TIR, decidiram cortar uma das vias – que deixaram para nós nos manifestarmos – e manter a outra aberta à circulação automóvel.

Na altura foi anticlimático, porque queríamos mesmo parar o trânsito. Queríamos que alguém dissesse que lá na terrinha um grupo de jovens insatisfeitos tinha provocado o maior engarrafamento de que havia memória… mas agora reconheço que, de certo modo, foi uma das provas mais singelas do “viver em democracia” a que pude assistir. A GNR não nos mandou para casa nem nos tratou de forma paternalista. Reconheceu o nosso direito à manifestação da mesma forma que reconheceu o direito dos automobilistas à livre circulação. Em democracia estabeleceram um compromisso entre ambos e da forma que foi possível, agradaram a gregos e a troianos. E nós, apesar de não termos conseguido parar o trânsito, pudemos gabar-nos, à hora do jantar com os nossos pais – que o tínhamos dificultado bastante. E que, à nossa pequena dimensão, tínhamos feito um novo 25 de Abril.

E é pena. É pena que o mundo não mude porque, cada vez mais, temos forças para menos. E é pena que as pessoas prefiram fingir-se cegas do que terem a coragem de ver e de não gostarem do que vêem. E que continuem a usar o termo liberdade apenas e quando mais lhes convém.

E a Senhora o que vai desejar?

A Catarina, suave amiga de 17 anos – que, num determinado contexto, denomino por “my daughter” – esteve pelo Porto com um grupo de amigos, também da sua idade, a queimar os últimos cartuchos de uma semana de férias longe dos pais. Era um grupo agradável, gente com olhos grandes, grandes, grandes, profundos, sedentos de mundo, ainda límpidos, puros, faiscando energia e força.

Encontrei-os a meio de uma discussão feroz sobre a lei do aborto. Cuspiam argumentos como se não houvesse tempo para dizer tudo o que queriam dizer. Discordavam sobre o momento em que a vida se pode considerar vida; dissecaram, depois, o conceito da objecção de consciência (por parte dos médicos), questionando a sua legitimidade e ousando, em alguns casos, apelida-lo de arrogância. Nos minutos que demorei a escolher o que queria jantar a conversa mudou radicalmente de direcção e quando lhe voltei a prestar atenção discorriam já sobre Salazar. Creio ter ouvido o nome de Alberto João Jardim lá pelo meio. Foi engraçado assistir.

Da Catarina, que transita agora para o 12º ano, fiquei a saber que pondera seguir Cinema na Faculdade e, cá por dentro, mau grado saber o mundo cão que essa área pode ser, e é – pelo menos no nosso País –, não pude evitar uma pontinha de orgulho. Não sendo do meu sangue, mas sendo do meu coração, apesar de os últimos tempos terem sido de alguma distância, há um bocadinho de sentimento de continuação e evolução da espécie nesse seu propósito. Eu fiquei-me pelo Vídeo porque Lisboa e Cinema ficava um bocadinho(ão) longe das posses dos meus pais, mas com ela tudo pode ser diferente. A Capital fica-lhe ao lado e potencial é coisa que não lhe falta. Mas claro que não lhe disse para se atirar de cabeça, sobretudo porque as suas certezas ainda não são firmes. Apenas a aconselhei a olhar-se por dentro e a descobrir aquilo que realmente a faz mover e a, quando o descobrir, se agarrar a isso com unhas e dentes e a perseguir o caminho, porque o caminho nem sempre se afigura direito à nossa frente. E é claro que, por dentro, também, dava pulos de contente e dizia “vai para Cinema, vai para Cinema, vai para Cinema!”. Vamos lá a ver…

A noite terminou do outro lado da ponte. Havia festa em Gaia. E telescópios do Núcleo de Astrofísica da Universidade do Porto. E como é bela a Lua vista de perto. E singelo o Planeta Júpiter. E giras as duas pulseiras que comprei.

Quando subia aos Aliados depois de, na Ribeira, me ter despedido deles tentava perceber que coisinha rançosa me tinha ficado ao canto da cabeça durante o jantar. E percebi. O senhor que nos atendeu no restaurante dirigiu-se aos rapazes com um “e o Jovem que vai querer?”, às raparigas com um “e a Menina, que quer para beber?” mas, quando chegou a minha vez, nem “jovem” nem “menina”. Levei com um “e a Senhora, já escolheu?” que foi um mimo. A Senhora… yeah! Lá por ter três tímidos cabelos brancos na cabeça, três, somente três, só se vê um – e esse fica colado com gel - , não significa que possa auferir do estatuto de… arghhh!, “Senhora”.

Uma gaja a querer “get along” com os mais novos, a sentir-se em casa com a onda deles e leva com um balde de água fria em cima. Mas, no final, a explicação era simples. A roupa que tinha vestida, ainda do trabalho, enganou o homem. E pronto, visto por essa perspectiva… uma pessoa até que… muito a custo… mas mesmo muito a custo… daquele custo que custa… acha uma certa piada.

Saturday, July 28, 2007

S.P.M days...

Almoço todos os dias no mesmo sítio. Sei que o café tem uma porta de vidro que, frequentemente, engana quem não conhece o lugar. Apesar de, todos os dias, baralhar os conceitos do “puxe” e do “empurre”, consigo abri-la sem muitos problemas, significando este “sem muitos problemas”, o espaço de tempo – breve – que demoro a perceber que estou a empurrar quando devia estar a puxar e a puxar quando devia estar a empurrar. Memória de peixe, I know. A porta está lá, existe, eu consigo vê-la. Tem um letreiro com as indicações de procedimento coladas acima da minha linha de visão, mas estão lá. Sou baixota mas consigo ler. A porta existe. Está lá. Não é miragem. Almoço ali todos os dias. Conheço os cantos à casa. As arestas à porta. Tudo.

Então… por alma de quem é que, hoje, acabei a dar uma bruta de uma cabeçada na gaja? Que raio me passou pela cabeça ao tentar sair, de lance pegado, sem a abrir? É que, porra, ainda me dói a testa e o orgulho… nem se fala.

Friday, July 27, 2007

Ora, põe isso mais alto...

Há músicas que salvam os dias. E com esta, que ouvi hoje na rádio, o meu silêncio fez-se de um diálogo imenso... comigo própria.


Thursday, July 26, 2007

Às vezes...

... como hoje, agarro-me à lembrança dos momentos felizes e respiro do seu ar para não sufocar. Às vezes tudo me cheira a mofo, tudo me sabe a velho, tudo me parece esbatido na sépia que resulta de uma má revelação. As palavras chegam-me aos ouvidos vindos de um longe que já não permite o seu entendimento. O discurso é fragmentado, distorcido, corroído, imerso em ruído, indecifrável. E, em abono da verdade, eu deleito-me com essa incapacidade inata que me faz margem de todos os grandes caudais da vida. Sigo desalinhada, não obedecendo às regras de etiqueta da conduta humana, não querendo saber porque se bate quem se bate na arena da ambição; de quem é o sangue derramado, de quem são os ossos de que os outros se servem para se erguer. Há dias em que me apetece bater com a porta e deitar fora a chave.

Tenho ambições, claro. Mas são tão simples, ou complicadas, que não constam da lista dos grandes feitos da evolução humana. Quero, se a vida me chegar a tanto, escalar, até ao limite das minhas forças, todos os muros que ergui em meu redor e desejo, se o conseguir, beber de um estado de paz que me permita dizer: “É isto. Não quero mais nada”.

Wednesday, July 25, 2007

Betsy Berne sobre Francesca Woodman...
... ou sobre nós...

Tuesday, July 24, 2007

O que irrita...

… são aqueles clientes que se encostam ao balcão e depois de, nas nossas barbas, lerem o último capítulo do Harry Potter dizem, para quem quiser ouvir: “Já sei quem morre!!!!

E nós, (eu), que estamos veementemente proibidos de agredir fisicamente os fregueses dizemos placidamente: “Por favor, não me conte!”... o que, na minha linguagem, é o mesmo que dizer: “Vais é morrer tu não tarda nada!

Monday, July 23, 2007

Right!

Quando um colega te pedir ajuda, porque não encontra um livro na tua secção, certifica-te de que a pessoa que te segue é ele, não fiques só com a impressão de que é ele. Porque assim, depois de teres passado os dedos pelas lombadas dos livros enquanto dizias, a alto e bom som: “Blá, blá, blá, blá, blá blá, whiskas saquetas”, não vais ficar com cara de tacho quando, ao virares-te para lhe dizer que afinal não tens o livro, concluíres – tarde de mais – que não tinha sido ele a seguir-te, mas sim os clientes.

E é que nem te passe pela cabeça argumentar com: “Ahhhhhh, é assim que se diz Inside Cuba da Taschen na Micronésia”, porque ainda te enterras mais.

Só acontece aos outros?

O Luís, um amigo meu, com quem faço parte de uma associação/movimento que tem por actividade de base a defesa e promoção dos direitos humanos, foi retido no aeroporto do Cairo e, depois de 12 horas de detenção, com direito a interrogatório, telefone confiscado, baratas e beliches mal cheirosos, deportado.

Ia ao Cairo juntar-se aos nossos amigos de Espanha, apoiar nas actividades que por lá desenvolvem, coisas simples e inofensivas como seminários sobre não-violência, tolerância e afins. Seria a sua segunda estadia no Egipto mas, conforme se veio a provar, já tinha sido marcado como indesejável da primeira vez, numa ocasião em que, para poder entrar numa residência universitária, deixou o passaporte como “caução”. Ao saber que, no dia seguinte, a Polícia Secreta tinha estado nessa mesma residência, o Luís brincou, dizendo que, muito provavelmente, já figurava da lista negra desta. Não se enganou.

Apesar de tudo, tudo correu bem. Meteram-no no primeiro avião para Madrid e daí para o Porto foi um instante. Vinha um pouco desconcertado, como se tivesse protagonizado uma piada de muito mau gosto, mas estava bem. Sabemos que estas coisas acontecem, que volta e meia os activistas batem com o nariz no guichet do controlo de fronteiras, mas nunca tinha acontecido a nenhum dos nossos. Não tão perto de casa.

Assusta-me um pouco tudo isto. Não o que nos pode acontecer no decurso do trabalho que desenvolvemos mas a forma como pela acção de poucos, muitos são subjugados. O Luís teve a sorte de ser cidadão estrangeiro, o máximo que lhe aconteceu foi passar 12 horas enfiado num corredor infestado de baratas antes de poder voltar para casa… o que acontece à população no seu dia-a-dia, não consigo sequer imaginar. Assusta imaginar. Ter de viver sob um regime totalitário, sem poder falar, com medo de pensar, sempre a olhar por cima do ombro... não consigo alcançar. E ainda bem.

E é por isso que me irrita solenemente que as pessoas – hoje em dia, independentemente da idade – digam à boca cheia que no tempo do Salazar é que era bom. Que havia mais respeito.

Respeito… Mas se calhar sou eu quem está enganada. Se calhar, naquela altura, respeito queria mesmo dizer medo.

Sunday, July 22, 2007

A bientôt Vítor et Sérgio

Capturar os momentos para descobrir que se esvaem por entre os dedos como areia fina. Olhar os rostos que tão bem se conhecem para aceitar que não farão parte do filme do quotidiano. Decorar a voz, a entoação, as expressões, o tom do riso, o silêncio e depois largar, desprender, deixar ir. Abrir as mãos e libertar todas as linhas que nos prendem; reter o olhar e partilhar com ele uma prece, meia palavra que se entende nas entrelinhas do que não se diz. Fechar os olhos, inspirar, sorver o sentido, a essência, o gosto de tudo o que, entre nós, por nós, é humano.

Repetir as histórias num exercício de mnemónica, como se por as transformarmos em mitos fossemos capazes de sobreviver ao tempo. Pintar, nas cavernas do coração, com a palma da mão embebida em vinho, o relato do que em nós mudou por termos sido com outros. Ousar na noite a intimidade que o dia não propicia, deixarmo-nos ficar, num tempo sem horas, à margem do mundo. Deixar o mundo acontecer lá fora enquanto, à volta de uma mesa, nos descobrimos sistema solar. Brilhar, aquecer, acontecer de novo. Abençoar a vida pelo que nos dá naquilo que também nos tira. Agradecer o tempo que nos calhou partilhar, não prometer o futuro mas existir já nele. Não descurar o presente mas sabe-lo já passado. Entender e gostar de reaprender que a amizade é, de todas, a mais bela história de amor.

Saturday, July 21, 2007

É à portuguesa, concerteza!

Foi ao rufar dos tambores que, hoje, entrámos na li[b]raria. Daqueles tambores que anunciam que a guilhotina está perto e que não há intervenção divina que impeça a lâmina de cortar o pescoço. Subimos as escadas como quem percorre o corredor da morte, arrastando os pés, evitando pronunciar a palavra “livros” em associação a “Harry Potter”.

Havia caixas com livros, isso havia. Belas caixas à espera de serem abertas, belos livros à espera de serem arrumados… mas nenhuma a dizer Bloomsbury. Nenhum a dizer "Harry Potter and the Deathly Hallows". Anunciava-se bela a festa. Sangrenta. Impiedosa.

Chefinha chegou, de phone ao ouvido. De orelhas em riste esperámos pela sentença final. Eram 9:30 da manhã. Os ponteiros do relógio soavam como o deflagrar de um morteiro. Ensaiávamos o texto da carta de demissão - antes o desemprego que uma turba enfurecida pela frente. Chefinha nunca mais se calava. Não sabíamos com quem falava. Não conseguíamos perceber o que lhe diziam. A conversa terminou. Não sustivemos a respiração, mas para dar efeito dramático, digo que sim. Sustivemos a respiração. Não houve grandes planos das nossas gotas de suor a escorrer pela testa – nem gotas de suor - mas digo que sim. O suor escorreu-nos pela testa. Não havia banda sonora a acompanhar a cena mas, sim, a música cresceu em intensidade, ecoando pelo peito. A câmara subiu em picado, diminuindo-nos na imagem, expressando a nossa impotência, o nosso quase desespero – que já era mais “ora, que se lixe, quero lá saber, não me pagam para isto” – quando, num último ribombar dos tambores, TUM-TUM, o silêncio se apoderou do enquadramento. Um de nós, porque fica bem antes de mudar plano, engoliu em seco. Glup!

Cena 2 – Interior/dia
P34 – Plano Médio


Chefinha olha pensativa para o telemóvel e, depois, ergue o rosto para a equipa que a olha, expectante. Sorri.

Chefinha:
- Os livros já estão em Lisboa. Saem para o Porto ainda esta manhã.

The End.

Não, não houve abraços nem lágrimas. Um suspiro de alívio sim, bem profundo, logo precedido por um “valha-me deus que isto tem de ser sempre assim, à última da hora e em cima do joelho”.

Quando fui almoçar, às 14:30, o serviço de expedição da nossa loja já tinha recebido os livros. Quando regressei do almoço, às quatro, já eles tinham sido arrumados onde ninguém lhes pudesse chegar e pela livraria, desde as 15:00, que vagueava o primeiro cliente que se dispunha a esperar até à meia-noite só para poder ser o primeiro a comprar o último Potter. Era um miúdo castiço, para aí de 13 anos, que logo aconchegámos debaixo da nossa asa protectora.

Onde estavam os livros ontem, quando já devíamos tê-los, ninguém sabe explicar. Por que caminhos andaram antes de chegarem hoje a Lisboa, nunca ninguém saberá. O “correio” – expedição – era interno, logo, todos os passos, localizações no mapa, contactos em viagem são possíveis. É só ir chateando toda a gente até chegarmos ao colega que conduz a carrinha. Ontem alguma falha houve no canal de comunicação mas… já não interessa. A festa está feita e há miúdos felizes que, a medo – afinal gente morrerá na terra da magia – vão passar a noite em claro agarrados à história, virando as páginas – sôfregos – repetindo em mantra “não pode ser o Harry, não pode ser o Harry”. Quando for a minha vez a cantilena será diferente. “Não pode ser o Ron e a Hermione, não pode ser o Ron e a Hermione”.

O lançamento foi engraçado. Apesar de não trabalhar à noite dei um salto à livraria para ver o ambiente e para "mais tarde recordar". A fila de pessoas até que era jeitosa e, para entreter a malta enquanto a meia-noite não chegava, andavam por lá uns moços e cabritinhos a dar um ar de sua graça e de seu fogo.



Não sei o que passou pela cabeça dos criativos-estafermos-de-serviço para pôr a Carmina Burana a tocar quando o relógio soou as doze badaladas. Eu, e creio que toda a gente, estava à espera da banda sonora do filme. Mas pronto, adiante. Esperava muito mais – porque o filme que nos tinham contado era muito melhor - mas não pude deixar de sorrir quando os três putos vestidos à Harry Potter saíram da loja, em direcção à tenda que havia sido montada na rua, com os livros nos braços.




O burburinho que se gerou entre os mais novos, o “olha, já aí vem!”, fez valer todo o stress dos últimos dias. O brilho dos seus olhos fez com que tudo valesse a pena. Tudo valeu a pena. Pela magia.

Thursday, July 19, 2007

A lei de Murphy

Cá no fundo das nossas entranhas, a gente sabia, a gente sentia, a gente calava os pensamentos, fazia figas, benzia os cantos à casa, rezava em silêncio, fazia a dança da chuva, apunhalava bonecas vodoo com a faca da cozinha e o machado do talho, mirava o livro de S. Cipriano, apelava à Alexandra Solnado, à Carolina Salgado, o diabo a quatro e deus a cinco… a gente sabia. A gente sentia. Lá no fundo das nossas entranhas.

Alguém me pode explicar como é que 800 livros do Harry Potter que, supostamente, deveriam ter chegado ontem desaparecem, sem deixar rasto, no caminho entre Espanha e Portugal? Como é que ninguém, absolutamente ninguém, faz ideia de onde foram parar?

Alguém me pode dizer onde nos poderemos enfiar se amanhã os ditos não chegarem? Se à meia-noite e um minuto nada tivermos para mostrar ao mundo, quando ao mundo, por um todo, só interessa uma coisa?

Se acontecer o pior... alguém me oferece asilo? Please?

Wednesday, July 18, 2007

Amourissima...

Hoje jantei sozinha. Ou quase. Mudei de turno para fazer o jeito a uma colega e à hora da fome, porque não queria sucumbir a conversas da treta – aquelas sobre doenças, mal estares, o estado do tempo e o colega do lado –, escapei-me para onde ninguém me podia encontrar e sentei-me à mesa com a Marguerite Duras. Gosto da Marguerite.

Conversámos durante toda a refeição, ou melhor, falou ela que eu, que me sinto pequena ao seu lado, não me achei com capacidade para, por entre o seu discurso, ir deixando a minha opinião. Na verdade, ela fala tanto por mim, tanto sobre o que sinto que, aproveitar os silêncios para dizer alguma coisa – que nunca seria de jeito -, soaria a redundância, palavras a mais para dizer o mesmo. Plágio.

Marguerite roubou-me os cigarros. Foi-os fumando uns a seguir aos outros, sem ordem, sem cuidado, deixando cair a cinza sobre a saia, limpando-a com gestos aborrecidos, sujando-a de cinzento, de nada. De tudo.

Bebeu dois cafés sem lhe experimentar o gosto. Olhou-me por dentro da alma, os olhos fulminando através dos óculos de grossa haste, assustando-me. Sim, eu sei Marguerite, eu sei, já não havia tempo mesmo antes de ter acontecido. O tempo é uma mentira. O maior de todos os embustes. Nada muda mas muda tudo. O antes e o agora não serão mais o depois. E é isso que me assusta e é isso que te dá gozo. O saberes que me altero sem que possa impedi-lo ou que, finalmente, exista e seja e não saiba como.

“Aprende!” – resmungou, antes de me abandonar. Não disse adeus, até depois, não gosta de despedidas. Deixou-me só. Um pouco mais cheia. Um pouco mais vazia.

Sentia saudades de estar assim comigo e em silêncio. Na companhia de palavras de quem já não está mas ainda existe. É um caso de sereno amor, este entre mim e os livros e de todos os momentos aqueles em que menos me sinto sozinha. Continuo a não evitar sentir-me só quando rodeada de gente e a não perceber muito bem porque me sinto acompanhada quando só.

Tuesday, July 17, 2007

Estava a jantar e quase me engasguei...

... 'dasse! Aumentar o IVA para 25%? Aumentar as contribuições em 10%? À semelhança de alguns países da Europa do Norte? Mas eu lá ganho o mesmo que um Sueco?


Se já fico deprimida sempre que olho para o meu recibo de ordenado e vejo o que o Estado me suga, que me restará? O suícidio?


Europa do Norte o tanas!
Nota mental: deixar de ver o telejornal às refeições.

Monday, July 16, 2007

Monday, bloody monday!!!!

Há dias de náusea. Dias em que os acontecimentos se sucedem e eu passo por eles em câmara lenta, ausente da acção, surda, muda, cega. Irrito-me com tudo, com todos, falo menos do que é habitual e passo-me dos carretos quando me perguntam se “está tudo bem?”. Está sempre tudo bem… apenas há dias em que o bem se desgarra do sempre. Porque raio todos querem sempre saber os pormenores pérfidos do que borbulha, nauseabundo, dentro de nós? Se eu dou espaço para que os outros “amarrem o burro”, porque não me deixam escovar o meu em paz? Arre!

Para desanuviar fui cortar o cabelo depois do trabalho. Curto, ainda mais curto, sempre mais curto. Gosto de o ver cair no chão à força de tesouradas. Cada mão-cheia que se vai é menos uma complicação, menos um ninho de andorinha, menos um redemoinho do mal de viver. Gosto de ter a cabeça arejada e se nem sempre o consigo por dentro, remedeio-me com o “por fora”.

Sunday, July 15, 2007

Encosta-te a mim...

Digo-te que vou deixar de gostar de ti, mas tu sabes que não é verdade. Às vezes era bom poder deixar de gostar das pessoas, desligar o botão e impedir que as despedidas cravassem tristeza no coração, mas não é isso que quero fazer. Quero sentir a tua ausência, porque é sinal que existes noutro sítio e estás bem.

Preciso de tempo para me entregar a tudo, seja ao amor, seja à amizade. Em mim quase nada é imediato, mesmo que às vezes seja imediata a empatia que sinto por alguém. Para o mundo sou reservada mas o mundo, para mim, não tem reservas. Miro-o de longe mas, quando me aproximo, sei já que chão piso. E, por mais que tente ser diferente… não consigo ser de outra forma.

Contigo… não tive hipóteses. Furaste a minha bolha pessoal com essa mania de me meteres os dedos nos ouvidos. E sim, podia dar-te para pior. Como às vezes te dava. Como às vezes tenho de me afastar de ti na livraria para não me desmanchar em riso, como às vezes, mesmo estando em lugares opostos, me roubas uma gargalhada.

Passou por nós o tempo. Esse tempo que muda os verbos, que lhes altera o sentido, que lhes atribui novos significados. Fomo-nos acrescentando. E por ti, contigo, este último ano tão cravejado de insatisfação e revolta, valeu bem a pena. Gosto desse tempo que, para nós, se fez novelo de histórias. Desse espaço confortável onde nos revelámos. Onde o teu companheiro deixou de ser “o meu amigo” para passar a ser, simplesmente, o Sérginho. Onde eu, tanta vezes cansada do que, na vida, não anda para a frente, pude, em silêncio, partilhar da tua compreensão.

Por isso perdoa-me se, apesar de contente por ti, me quedo um pouco triste. Nada será igual sem ti e, mau grado a distância nada significar e França ficar aqui ao lado, levas contigo a caixinha de cores que dava luz ao meu cinzento. E não, não te perdoo o deixares-me entregue aos bichos, mas prometo rilhar os dentes quando tentarem morder-me os calcanhares. Também não te perdoo deixares-me sobrecarregada com trabalho, mas jamais deixaria que outra pessoa tomasse conta da tua secção. Ainda ficas depois de teres partido e essa parte de ti não deixarei nunca que me abandone.

Terei de me fazer às manhã e às tardes sem que, ao provocares-me e ao levares a resposta devida, me retribuas o torto com um “gostas pouco gostas”. Vou ter saudades que digas “a minha O.” - foste o primeiro a adoptar o meu apelido como nome e todos te imitaram. Vou ter saudades de ti, mesmo que diga que não. E ainda que me irrite o facto de, mais cedo ou mais tarde, todos os que me significam e fazem significar partam… ficar, adquire para mim uma outra dimensão. Se tenho esta sensação do ficar… é porque estive e estiveram comigo. E estar, aliando o ser, é um pouco daquilo que eu quero na vida. Senão tudo.

Por isso, gajo!, vai e não olhes para trás. Faz-te emigrante e regressa em Agosto ao som de música pimba. E se até quinta-feira o Jorge Palma se voltar a ouvir na loja, não sejas bruto, não me faças tropeçar outra vez; mas, sim, por favor, puxa-me pelos ombros e encosta-me a ti.

De Jet Set às avessas

Era suposto, nós, amigos da vid’airada, termos ido a uma festa de anos de uma colega de trabalho. Era suposto as pulseirinhas azules que ela nos deu, serem o salvo conduto que nos abriria as portas da discoteca/bar/restaurante/o raio que o parta, ali para os lados do Castelo do Queijo. Era suposto estar toda a gente reunida às 0:30. Era suposto termos a good time together. Era suposto…

Fomos os primeiros a chegar. Não nos deixaram entrar para esperar lá dentro pelos outros porque decorria muy nobre e chic festarola de inauguração de uma discoteca/bar/restaurante/o raio que o parta no ALGARVE. Pediram-nos para esperar. Esperámos por respeito à aniversariante. Esperámos 15 minutos. 30 minutos. 45 minutos. Nem o jantar acabava nem a aniversariante e demais [seus] convidados chegavam. A realeza do Porto, entretanto, com ou sem pulseirinha, ia entrando e nós, qual proletariado oprimido pelas classes altas, íamos bufando impropérios de natureza comunista e rezando, satanicamente, pela alma da Salomé.

Esperámos uma hora. Uma hora e dez minutos. Uma hora e quinze. Uma hora e meia. Finda a paciência, quer pelos critérios de entrada da discoteca/bar/restaurante/o raio que o parta, quer pelo atraso exageradamente nupcial da moçoila, debandámos em peso e fomos pregar para outra freguesia.

Acabámos no Sá da Bandeira, onde o cartaz anunciava as Rainhas da Noite, um show de Travestis/Transformistas/Drag Queens/Homens com Grandes Mulheres por dentro. Mas porque a noite, apesar de ser 14, se portava como 13, chegámos quando, ao espectáculo, restava apenas a parte final.

O senhor da bilheteira, contudo, ao ouvir-nos dizer que “isto hoje não está a correr nada bem”, lá se compadeceu e deixou-nos entrar… de borla.

E foi bom. Não só pelo que, do show, pudemos ver - aquele Ricardo/Madonna estava de se lhe fazer uma ovação - mas, sobretudo, porque depois da má experiência com a soberba in da Foz, fomos encontrar gente de bem na baixa. Este senhor que não quis saber de que cor era a nossa pulseira, que não nos mediu de alto a baixo, desdenhando dos nossos ténis; e nos fez entrar – sem pedir nada em troca – num sítio que, de longe, superou em glamour a pretensa superioridade da raça no Castelo do Queijo.

E ainda que a intenção da Salomé tenha sido a melhor – e a gente lhe agradeça o gesto e tente, depois, compensá-la pela ausência - há pessoas com as quais faz mal ao fígado misturarmo-nos. Se é para padecer de cirrose, que seja ali para os lados do Bolhão, onde a gente fala mal, não tem jipe BMW, mas é verdadeira e nos amassa, sem tretas nem nojos, no conforto abalroador de um abraço.

Saturday, July 14, 2007

Ando a ler...

"A Vida Material" de Marguerite Duras.

E foi isto que me fez soltar uma gargalhada em pleno metro:

Talvez... por me soar (qual é a palavra?) familiar?

De amores comigo

Há uma miúda, a quem eu acho uma certa piada, que, de vez em quando, ao visitar-me, me rodeia os ombros com os braços e me sussurra, serena, ao ouvido.
“Pensas que eu não sei? Pensas que eu não sinto? Não és tu quem muda as coisas de sitio, são as coisas que se mudam de ti. Deixa-as ir. Não as recebas de volta. Já nada, nelas, és tu”.

Friday, July 13, 2007

in "Escrever" de Margueritte Duras... my friend, who speaks to my heart.

Deitar tudo cá para fora...

Às vezes, apetece-me chegar a casa, ligar a música no máximo e gritar... gritar, gritar, gritar... até não haver mais nada para dizer.
E depois... ficar a ouvir... arranhar a pele até sangrar. Sentir.


Thursday, July 12, 2007

Foi sem querer, senhor agente... juro!

Estreia amanhã (hoje) o novo filme e devemos estar para receber o novo livro. Virão em caixas seladas que só poderemos abrir às 0:00 do dia 21 de Julho. Uma ordem judicial impede-nos de espreitar. Mas não sei, não… Já me estou a ver a “Ops! Deixei cair a caixa! É pá, espalhou-se tudo pelo chão!

Quando crescer quero ser, em absoluto, como a Hermione.

Leonor fumou a erva, por onde ia, descalça e não segura...

Claro que, nem só das tralhas do meu irmão vive a casa dos meus pais. Também existem as minhas, quais pegadas de dinossauro ou excremento paleolítico. Reais achados arqueológicos que remontam ao tempo em que eu ainda era uma “tábua rasa” mas consideravelmente mais satisfeita.

Ao reparar num velho dossier que estava para lá ao fundo da estante, soterrado por respeitosas camadas de pó, ousei pegar-lhe para ver o que, de mim, ainda guardava.

Poemas. Credo! Se soubesse que, mais tarde, me deixariam embaraçada, nunca os teria escrito. Mas era jovem e transbordava de sentimento.

Blhark!

Duplo Blhark!

Má, teimosa e potencialmente chata…

Tu és má!”, é a frase que caracteriza a relação da minha mãe comigo nos últimos meses.

Sou má porque não cedo, não condescendo, não entro no jogo dela e a obrigo a fazer aquilo que, muitas vezes, ela não quer fazer. Sou má porque a voz se me altera e assume um tom um tanto ou quanto autoritário, ainda mais grave do que já é por natureza e, apesar de amigável, muito pouco doce.

Deve haver alturas em que, aos olhos dela, não sou melhor do que uma cabra do monte e, ainda que me custe encarnar tal papel, há alturas em que tem de ser assim, como na tropa, com disciplina.

Às vezes, ao “tu és má”, respondo com riso. “Pois sou má, sou!” Mas, às vezes, não consigo evitar que as suas palavras – inocentes - me magoem. Não, não quero ser má. Nem quero ser sua mãe. Quero voltar a ser apenas filha.

Ontem recebi o mesmo tratamento. Aproveitando a folga fiz uma visita relâmpago a casa. Contra os meus melhores esforços, o telefonema de há dias atrás deixara-me inquieta. Precisava de ir ver como estavam as coisas, mesmo que só pudesse estar lá apenas algumas horas. 120 km de distância e vários comboios pelo meio, não deixam tempo para muito mais.

Nada estava pior do que antes, muito pelo contrário. A nova estratégia de toma de medicação – conspirada com as funcionárias do centro de dia – parece estar a dar resultado. Encontrei a minha mãe mais serena, mais concentrada, mais viva e com menos desvios de pensamento.

Fiz-lhe as perguntas da praxe, cujas respostas são, para mim, bons indicadores do seu estado mental. Lembrava-se do que tinha comido e disse-mo, em vez de responder “não sei”. E quando o “não sei” é substituído por “massa com chicha” e “a sopa toda”, sei que estamos no bom caminho.

A casa precisava de um pouco de arrumação e porque, de vez em quando sou mordida pelo bicho carrapato da super-mulher-a-dias, meti mãos ao trabalho e aproveitei a deixa para me livrar de uma série de tralhas do meu irmão. Foi a gota de água… Tentou demover-me de virar o quarto do rapaz do avesso e porque fiz ouvidos de mercador, atirou-me outro “tu és má!

Pois sou má, sou!”, respondi enquanto lhe fazia cócegas. Afastou-se com um “Ó!” e regressou passado algum tempo com um “tu és teimosa!”.


A este ritmo mal posso esperar pelo “tu és chata!”. :)

Tuesday, July 10, 2007

Tirem-me deste filme?


Acabei de decidir que odeio a época escolar. Ainda mal começou e já estou farta de olhar para tabelas Excel com nomes de escolas e códigos de cursos e o diabo a quatro que as criancinhas precisam para se tornarem cidadãos de direito. Valha-me um santo! Para que é que eu trago trabalho para casa? O CSI vai começar e o sofá está-me a fazer olhinhos…

O pior é que metade deste esforço vai ser inglório. Okay, dá lucro à casa e o que a gente quer é dinheiro na conta ao final do mês mas… quantas destas criancinhas e crianções, que tanta água pela barba nos darão nos próximos meses – sem esquecermos os paizinhos que não entendem que determinado livro ainda não chegou porque a editora não o tem e que nós, perante isso, nada podemos fazer - vão, de facto, desfolhar as páginas que tantas árvores sacrificaram e aprender alguma coisa de jeito?

Eu sei que tenho a mania de ver as coisas para lá daquilo que elas realmente são e que, para alimentar o meu ego, me levo a acreditar que faço parte de toda uma máquina que potência o desenvolvimento do País e que, nesse gesto simples que é vender um livro se pode, às vezes, mudar uma vida… mas, sometimes, como agora, pergunto-me se vale realmente a pena importar-me com a essência do que faço. Afinal é tudo um negócio e eu, aos olhos dos outros, nem sempre valho o meu peso em ouro. Nesta altura as livrarias não são mais seguras do que o Iraque e cada pai que entra é um possível terrorista.

Mas, que raio, de que me queixo? Dá trabalho sim, dá muitas dores de cabeça, testa tudo o que é humano em nós e deixa-nos, literalmente, à beira de um ataque de nervos mas é recompensador também. Por cada miúdo que não se interessa há dois que chegam, abrem os livros e os cheiram. E sorriem.

Por cada miúdo que não vai fazer o mínimo esforço para se dotar das competências básicas, há dois que vão querer sempre saber mais. Por cada pai, cujo esforço não é reconhecido pelos filhos, haverá sempre dois que não esconderão o orgulho.

E no fim, quando nos pedirem um relatório de desempenho, cheio de gráficos e números, poderemos remata-lo a dizer que as novas gerações se fizeram ao mundo e que nós, que fomos a geração rasca e somos a geração à rasca, acreditamos que eles farão e serão melhor do que nós.

E claro, tenho que me lembrar disto, quando - não tardará - estiver a ponto de “apunhalar “ um pai com o dicionário que estiver mais à mão.

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A próxima entrada do ficheiro Excel pertence ao Externato das Escravas do Sagrado Coração de Jesus…

… estudar aqui deve ser… um acto de extrema fé?

Sunday, July 8, 2007

Dulce far "quase" niente!

Pois é, pois é! Vai-se para a borga e depois para sair da cama é um cabo dos trabalhos… Não há vontade que erga o corpo e só a obrigação nos põe a toque de marcha. Mas é bem-feita! Quem é que me manda aceitar dar um workshop ao Domingo? Tinha ainda tanto para dormir…

Mas correu bem e foi engraçado e, apesar de não ter tido tempo para fazer aquela apresentação power-point toda xpto, a mensagem passou e o pessoal, não tarda, está a dar uma de Spielberg e a ganhar os Óscars.

O resto do dia consumiu-se na Ribeira em amena cavaqueira - e amenos silêncios - com o Luís.

Gosto de silêncios.

Gosto das amizades que não sentem constrangimento perante o silêncio, que não precisam de saber sempre o que cada um está a pensar, que não precisam do constante nhac nhac das palavras… dessas amizades a que, às vezes, basta a companhia do outro e o rio em frente dos olhos.

E a Ribeira, hoje, estava de se amar.



O que se ouviu ontem, a caminho do bar...

Ele para Ela, (de forma um pouco agressiva): Os bissexuais não existem, são um mito!

(hum... será que também vivem nas estranhas das cidades como as tartarugas ninja?)


Elas para a amiga (que, resmungando, tentava desunhar-se com três bebidas nas mãos): Hoje estás muito hetero!




A noite?
Definitivamente colorida! Gamas e pigmentos e texturas que representavam todo o espectro.
Cheia de gente bonita. Bonita por dentro, bonita por fora, bonita por dentro e por fora. E de perfil e… adiante… e… ok… fui.
A música nem sempre foi “daquele jeito!” mas, apesar de estar mais morta que viva – isto de levantar cedo e trabalhar não faz bem à saúde -, o pé ainda se soltou ao ritmo de alguns ritmos.
E deu para descontrair, e para esquecer a vida lá fora, e para dar aquele abraço aos amigos e para sermos fotografados para o Portugal Gay…

... e...

… e até nem ficámos mal.

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Agora... isso dos bissexuais serem um mito... mas para quê tanto rótulo, tanto conceito, tanta definição, tanta etiqueta, tanta rétorica, tanta divisão... quando o que realmente interessa é que a sociedade reconheça que todos, sem excepção, têm o direito aos mesmos direitos?

Às vezes não entendo...

Saturday, July 7, 2007

E porque o que faz falta é animar a malta, logo à noite a malta vai desopilar para aqui:



(porque é que esta trampa não me deixa pôr título? também tu blogger?)

...

Há telefonemas que odeio. Que me revolvem as entranhas e me fazem sangrar. Que me sugam o ser com a voracidade de um buraco negro. Que me transformam num buraco negro, sem matéria, sem princípio nem fim, sem tempo. Sem esperança. Sem jeito. Sem forma. Sem conteúdo. Vazia. E a transbordar.

A sua mãe está senil”, disseram-me.

Senil o raio que vos parta! A minha mãe quebrou-se. Estilhaçou-se em mil pedaços que circulam livres e sem ordem pelos abismos profundos da sua mente. A minha mãe, toda ela, é um abismo. Está ausente da sua imagem no espelho, não se reconhece, não se conhece, não sabe ao que anda. Esqueceu-se do mapa, não usa GPS e não deixa pedras coloridas pelo caminho. O mundo é-lhe sombra e deve ser assustador. Perdeu-se momentaneamente mas não de nós. Não de mim.

A corda estica mas ainda não se partiu. Ainda estamos ligadas. Ainda não deitámos a toalha para o chão do ringue. Ainda não desistimos. Ainda não desisti. Não posso. Não posso. Não o farei.

Senil estou eu que me esgoto sem me usar. Que não possuo o dom da ubiquidade. Que vivo vidas paralelas e já não sei onde se delimita a fronteira entre as duas. Que não estou aqui nem lá, mas num limbo onde tão pouco posso fazer e onde a realidade do que tenho de fazer me dói. Me mata. Porque é cruel e ela não vai entender. E eu não me vou perdoar.

Como pode estar senil quem ainda me conhece? Quem ainda me sorri? Quem ainda me chama? Quem ainda me ama?

Como podem sentenciar uma pena para a vida se a vida é o que ainda nos resta? Já não nos sobra mas ainda existe. A noite ainda não desceu sobre nós, o silêncio ainda não se instaurou. Parem com a merda das vossas certezas, dos vossos conceitos, das vossas frases chaves e deixem-me arreganhar os dentes, engolir as lágrimas e insistir em mais um passo em frente. É só o que existe em frente que eu tenho, porque o que está para trás tende a perder-se. Eu sei. Eu sei. E não gosto. E não quero. E nunca vou aceitar.

E se tantas vezes já não sei o que fazer, porque me retiram o que em mim já é tão pouco de fé? Se me desgarro de Deus sem ajuda, porque me dão esse impulso final que me faz virar-lhe as costas de vez?

Não é senil que ela está. Está quebrada. E o meu rolo de fita-cola ainda não acabou. Ainda tenho unhas. Ainda tenho dentes. Ainda acredito que posso colá-la de volta. Não inteira, eu sei… eu sei… eu sei!!!... mas o mais próximo de uma forma que era a sua. O mais próximo de um lugar onde eu possa dizer baixinho, só para mim, para mais ninguém ouvir, para mais ninguém opinar… que vai correr tudo bem. Que o pior já passou. Que, por agora, podemos dormir descansados.

Por isso deixem-me em paz. Já me basto eu para me encher de medos.

Friday, July 6, 2007



in "Não-Lugares", de Marc Augé

Thursday, July 5, 2007

A Photographer's Life

Susan at the House on Hedges Lane (1988) (Photograph ©Annie Liebovitz)


Tenho andado a namorar isto. O último livro editado por Annie Leibovitz, que faz a resenha da sua carreira como fotógrafa e levanta o véu sobre a sua vida pessoal.

No tempo devido, Leibovitz foi uma referência para mim. Não digo que passei horas a fio a desfolhar os seus livros e a analisar ao pormenor as suas fotografias mas, enquanto estudante, quando fotografava, o olhar fugia-me – mais do que gosto de admitir - para a sua imitação. Anos mais tarde e de acordo, também, com o meu crescimento, as minhas afinidades passaram-se para o lado da Nan Goldin e é ela que hoje – e creio que, para sempre – tento imitar… nessa busca constante pela essência que, um dia, tenho fé, dotará o meu fotografar com a verdade única do meu olhar.

Mais do que ver as fotos de carreira tenho curiosidade em desfolhar as fotografias do álbum de família da Annie Leibovitz. Essas fotografias privadas, impressas na película do carinho. E não é que, de repente, me tenha dado um surto de voyerismo mas é que, de repente, fiquei a saber que ela partilhou 15 anos de vida com Susan Sontag. E bem… a Susan Sontag é a Susan Sontag.

As suas obras faziam parte das listas de leitura semi-obrigatória que os professores, no início do ano lectivo, nos davam para complemento das aulas. Confesso que da lista de Sociologia só li os resumos que pedinchava aos meus colegas antes dos exames mas, da lista de Fotografia, li alguns. O velho e mórbido “Câmara Clara” do Roland Barthes, o “On Photography” de Sontag e outros que significaram tão pouco que, para não me lembrar do título, é porque os deixei a meio. Ou não li de todo.

Susan Sontag tinha, para mim, a dimensão de um “monstro”. Assustava-me. Perguntava-me como seria ter uma conversa sobre o estado do tempo com esta mulher de pensamento tão intrincado. Questionava-me sobre se seria possível ter-se, sequer, uma conversa sobre o estado do tempo com ela. Parecia-me etérea, desligada dos condicionalismos da vida, à margem do mundano, ausente do quotidiano, iluminada ao ponto de não precisar de fritar um ovo ou de ir à casa de banho, porque vivia e sobrevivia da vida.

Enquanto lia e lia e lia e voltava a ler e me irritava porque não percebia nada, dava por mim a imaginar como seria orbitar em seu redor. Intocável, era a palavra que me ocorria. Uma mulher assim só podia ser intocável. Inalcançável mesmo.

Agora, da mesma forma que sei que há coisas que são escritas com o intuito de serem entendidas para além das palavras, sei também que, independentemente do sitio de onde viemos, que independentemente do lugar para onde queremos ir e que, independentemente da pessoa em que - no decurso da viagem - acabamos por nos tornar, todos procuramos o mesmo: um pouco de paz. Susan Sontag incluída.

No fim não me surpreendeu a natureza (e colorido) da sua orientação sexual mas achei curioso que a sua companheira fosse Annie Leibovitz, uma das mais fortes “obreiras” da cultura Pop e do mainstream da actualidade. Não que seja de opinião que Leibovitz não tem mérito – o seu trabalho fala por si e Sontag amava a artista para além da arte – mas porque, à primeira vista, (essa primeira vista que tão mal julga), me pareceu uma ligação improvável. Que não foi.

E fiquei curiosa. Não pelo trabalho de Leibovitz - já o conheço - mas por Susan aos olhos de Annie. Por essa Susan que, a julgar pelas fotos que pude ir vendo, me parecia capaz de dizer, sem esperar resposta ou contestação: “Hoje parece que vai chover”.

Wednesday, July 4, 2007

Ando com...

Fome de sentido. Fome de direcção. Fome de intenção. Fome de palavras. Fome de significados.
Estou cansada do que é oco nas relações humanas, do que nelas se adivinha hipócrita, no trágico teatro que transforma o discurso em farsa, no olhar que não se partilha porque é vazio.
Tenho saudades de me apaixonar pelas pessoas, de me sentir condutora e estação de emoções, de me sentir tocada pelo riso e pelo silêncio. Mesmo pelo nada.

Tuesday, July 3, 2007

This is the way...


O mau de me terem dado todas as séries de L Word?

É que nunca se consegue ver só um episódio e as horas que restam, depois de tais maratonas, quase não chegam para dormir.

Monday, July 2, 2007

... a ternura dos 30



Os meus almoços com os meus colegas de trabalho são acompanhados, quase sempre, por doses dolorosas de riso que, ainda que não ajudem à digestão, descongestionam o stress e elevam o ânimo.

Ultimamente, fomos incorporando o “xiuuuuuu” à nossa indisciplinada verborreia. Não que falemos alto, ainda que o riso da Salomé se ouça a quilómetros de distância, mas porque o café onde assentamos arraiais tem a rádio sintonizada na M80, uma estação à maneira que toca música velha e que nos puxa pela saudade e pelo inevitável partilhar de histórias do tempo da outra “nossa” senhora.

E credo… não há mudicetea que nos valha…

E não, eu não dancei esta música – com turma e coreografia – na festa de Natal do 2º ano do ciclo… … … …